Concreto Autoadensável: características e especificidades

O concreto é um dos materiais mais utilizados na construção civil, e um dos mais utilizados no mundo. Como sabemos, é composto por cimento, água, agregados miúdos e graúdos (areia e brita) e, em muitos casos, aditivos químicos, adições minerais, fibras e pigmentos. A qualidade do concreto é influenciada por diversos fatores, como a dosagem dos materiais, a mistura, o transporte e o lançamento. No entanto, o processo de adensamento pode ser uma das etapas mais críticas do processo, pois afeta diretamente a qualidade final das estruturas, ainda que se utilize um concreto devidamente dosado e produzido.

O concreto autoadensável (CAA) é uma tecnologia relativamente nova na construção civil. Ele foi desenvolvido no Japão, em 1988, e foi introduzido pela primeira vez na Europa após 1990. O CAA é um tipo de concreto que se adensa sob seu próprio peso, sem a necessidade de vibração ou compactação externa. Ele é capaz de fluir e preencher todos os espaços, sem ação externa. Isso é possível graças à alta capacidade de deformação do concreto no estado fresco e coesão, o que é proporcionado por uma combinação de materiais de alta qualidade e aditivos especiais.

O CAA possui algumas propriedades interessantes que o tornam uma escolha atraente em muitas aplicações. Ele é capaz de preencher completamente espaços muito estreitos, o que permite a produção de formas complexas e detalhadas. Além disso, ele é capaz de penetrar em locais de difícil acesso e preencher completamente todos os espaços. Outra vantagem é que ele reduz a necessidade de mão de obra e equipamentos de vibração, o que pode reduzir o custo e o tempo de construção, além de diminuir ruído no canteiro de obras e melhorar a qualidade final da estrutura.

As publicações de maior destaque no país são o livro Concreto Autoadensável de Bernardo Tutikian e Denise Dal Molin, que teve sua atualização publicada em 2021; e a Prática Recomendada do IBRACON, de 2015, produto do CT-202.

Inclusive, Tutikian e Dal Molin (2021) definem o CAA como o concreto que atende a 3 propriedades no estado fresco, de forma simultânea:

  • Fluidez
  • Coesão necessária para que a mistura escoe intacta entre barros de aço (habilidade passante)
  • Resistência à segregação

A dosagem do CAA é um processo crítico que requer uma combinação precisa de materiais e aditivos. A seleção dos materiais e a dosagem adequada devem ser baseadas nas propriedades desejadas do CAA, como a resistência, a reologia e a estabilidade. O processo de dosagem é complexo e pode ser influenciado por diversos fatores, como a temperatura ambiente, a umidade e o teor de água dos materiais. No livro, Tutikian e Dal Molin apresentam dois métodos de dosagem práticos e aprovados por muitos centros de pesquisa e empresas que os utilizam na prática.

A ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) possui normas específicas para o Concreto Autoadensável (CAA), que estabelecem requisitos e procedimentos para a sua produção e aplicação. A NBR 15823 (ABNT, 2017) estabelece as características e propriedades que o CAA deve apresentar, bem como os requisitos para a sua dosagem, produção, transporte e aplicação. A norma também define as exigências para os ensaios de caracterização e controle da qualidade do CAA. Essa norma possuía a primeira versão em 2010. Quando foi atualizada, em 2017, se tornou uma norma extremamente atualizada, entre as melhores do mundo, abordando os principais ensaios de CAA.

Além disso, a NBR 6118 (ABNT, 2014), estabelece os requisitos para o projeto de estruturas de concreto em geral, incluindo aquelas construídas com CAA. A NBR 12655 (ABNT, 2022) também é aplicável ao CAA, pois estabelece as recomendações para a preparação de amostras de concreto para ensaios de compressão, que são essenciais para a avaliação da resistência mecânica do CAA. A mesma coisa podemos afirmar em relação à NBR 9062 (ABNT, 2017), sobre estruturas pré-moldadas e pré-fabricadas.

Existem diversas obras famosas que foram construídas com o uso de CAA. Uma delas é o Museu Guggenheim de Bilbao, projetado pelo arquiteto Frank Gehry. O CAA foi utilizado na construção da icônica estrutura curvilínea do museu. Outra obra famosa é a Ponte Sundial, localizada em Israel. A ponte foi projetada pelo engenheiro Santiago Calatrava e é uma das primeiras pontes do mundo a serem construídas com o uso de CAA. O CAA também foi utilizado na construção do Centro Nacional de Artes Cênicas de Pequim, projetado pelo arquiteto francês Paul Andreu.

A closeup view of Guggenheim Museum's modern facade in Bilbao Spain
Museu Guggenheim de Bilbao
Ponte Sundial, localizada em Israel
Centro Nacional de Artes Cênicas de Pequim

O CAA tem sido amplamente utilizado em países como o Japão, a Europa e os Estados Unidos. No Brasil, ele tem ganhado espaço nas últimas décadas, especialmente na indústria de pré-fabricados e em obras que exigem formas complexas e grande resistência mecânica. Um exemplo é o edifício One Tower, localizado em São Paulo, que possui uma fachada com formato ondulado e foi construído com o uso de CAA. Outro exemplo é a ponte estaiada Octávio Frias de Oliveira, também em São Paulo, que possui uma torre central com 138 metros de altura e foi construída com o uso de CAA. Das empresas de pré-fabricados, várias utilizam o CAA em parte ou na totalidade da sua produção, como a Rotesma e BPM (SC), Cassol, Protendit e Leonardi (SP), Construrohr e Molder (RS), entre outras.

O desenvolvimento do concreto autoadensável foi possível graças aos avanços tecnológicos na área dos aditivos para concreto. E alguns profissionais e autores contribuíram bastante para o desenvolvimento do CAA, com o Hajime Okamura, Mario Collepardi, Fraçois De Larrard, Ravindra Gettu, Kamal Khayat, entre outros. No Brasil, nomes como André Geyer, Paulo Gomes, Denise Dal Molin, Monica Barbosa e Bernardo Tutikian estão entre os que mais contribuíram para o desenvolvimento nacional da tecnologia.

*Este artigo foi redigido pelo Engenheiro Civil Júlio Daudt sob curadoria de Bernardo Tutikian.

Bernardo Tutikian

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