Cement Construction Installation

A Cura do Concreto: o que é e como realizar?

O cimento é um material que desenvolve suas propriedades no estado endurecido por meio de reações exotérmicas com a água. Especialmente no concreto, essas reações exotérmicas liberam o calor de hidratação e, normalmente associadas a um processo inadequado de cura, podem causar uma lacuna de propriedades mecânicas e durabilidade.

A cura do concreto é um processo iniciado logo após a concretagem para manter saturada a superfície dos elementos concretados, principalmente com dois objetivos, que estão também relacionados entre si:

  • Prevenir a perda de água da mistura: a perda acelerada de água da mistura pode comprometer a hidratação do cimento e por consequência reduzir significativamente o desempenho do material no curto, médio e longo prazo. Além disso, essa perda acelerada pode gerar um processo de fissuração avançada, uma vez que ocorre a retração do concreto pela perda de volume de água da mistura.
  • Controlar a temperatura do concreto: primeiro, com o aumento da temperatura existe maior evaporação de água da mistura, o que não é bom, como visto. Porém, não somente a perda de água pode ser um problema, especialmente em elementos de concreto de maiores dimensões. Em situações em que não há um processo de concretagem adequado e, mais do que isso, um mecanismo de cura bem especificado, o calor no interior da massa de concreto é maior do que nas camadas mais superficiais e, como nestas camadas superficiais já está ocorrendo a retração e no interior ainda não, esse gradiente de calor promove um estado diferencial de tensões no elemento, deflagrando as fissuras.

Claro, em regiões muito frias o processo de cura também pode ser um problema pela falta de calor e o retardo excessivo das reações de hidratação, configurando uma situação de baixa produtividade, uma vez que o concreto demora demais para atingir a resistência inicial desejada e prevista em projeto. Nestes casos, pode ser necessário utilizar uma técnica de cura que promove um aquecimento dos elementos.

Quais os métodos de cura do concreto?

As técnicas de cura do concreto podem ser classificadas em três grupos principais: a cura úmida, a cura térmica e a cura química. A decisão por qual técnica é a mais adequada depende de inúmeras variáveis, especialmente a velocidade de desforma, o local da obra, as condições climáticas do ambiente e o tipo de elemento concretado.

Cura úmida

Para a realização de cura úmida podem ser encontradas técnicas semelhantes, porém com eficiência e custos diferenciados entre si. A mais comum é depositar água sobre a superfície de tempo em tempo, como ilustra a Figura 1. Entretanto, a utilização de mantas de algodão, mantas de papel ou mantas geotêxtis, todas saturadas, pode ser mais eficiente, uma vez que não dependem de um profissional realizar a molhagem repetitiva em curtos espaços de tempo. Irrigação e aspersão de água também são métodos para manter a superfície saturada.

Figura 1: exemplo de cura úmida do concreto – Fonte: https://www.tecnosilbr.com.br/o-que-e-cura-de-concreto-e-como-fazer-uma-cura-eficiente/ (acesso em 03/04/2023 às 14h38min)

Cura térmica

A cura térmica é mais indicada para elementos pré-fabricados ou em casos específicos em que é necessário um ganho expressivo de resistência inicial. A peça de concreto é submetida a altas temperaturas da maneira mais homogênea possível, a fim de acelerar o processo de hidratação, mas as condições de saturação são mantidas, com elevada umidade ou aspersão de água constante sobre as superfícies do elemento, como mostra a Figura 2.

Figura 2: exemplo de utilização de manta térmica para cura do concreto – Fonte: https://ramboimpermeaveis.com.br/produto/manta-termica-para-cura-de-concreto/
(acesso em 03/04/2023, às 14h42min

Cura química

A cura química é uma técnica que estabelece uma película superficial sobre o elemento concretado por meio da aplicação de produtos de base acrílica. É uma boa técnica, entretanto, deve-se atentar à aderência de revestimentos aplicados sobre a superfície do concreto, haja vista que essa película cobre os poros superficiais e reduz significativamente a capacidade de aderência mecânica dos materiais aderidos. A figura 3 mostra a aplicação de cura química no concreto.

Figura 3: aplicação de resina para cura química do concreto – Fonte: https://laticrete.com/en/solution-center/featured-solutions/concrete-construction-chemicals/installation-guides/curing-and-sealing
(acesso em 03/04/2023, às 14h46min)

Além disso…

nos últimos anos vem se estudando a incorporação de agentes de cura interna no concreto, como materiais superabsorventes que retêm a água da mistura e a libera progressivamente para as reações de hidratação e estabilização do calor de hidratação. Alguns destes materiais podem ser provenientes de resíduos industriais, como o exemplo de resíduos de indústrias de fraldas infantis. Aditivos químicos especiais para cura do concreto também estão surgindo no mercado e podem ser boas soluções técnicas, desde que devidamente especificados e avaliados. Alguns riscos desse tipo de cura, com agentes internos, estão relacionados a concretagens em ambientes de muito vento e incidência solar, uma vez que a evaporação superficial de água pode criar regiões de cura diferencial, o que não é positivo, como se mostra na figura 4.

Figura 4: representação gráfica do processo de cura com agentes internos, neste caso, agregado leve (poroso)

Fato é que a cura do concreto é um procedimento fundamental para que o material atinja suas características mecânicas especificadas e a durabilidade exigida. Em muitos casos percebe-se uma certa negligência em relação à cura do concreto, muitas vezes porque acredita-se que a cura não tenha uma influência significativa na qualidade das peças concretadas. Essa é uma abordagem que não poderia estar mais errada, em muitos casos a cura pode ser uma das etapas mais importantes na construção de estruturas em concreto armado.

Não somente em elementos de concreto, mas a cura de todos os materiais cimentícios é importante, a exemplo da cura de revestimentos de argamassa, que diminui expressivamente o potencial de fissuração por retração superficial. Mas esse é um assunto para outro artigo aqui do blog.

Agora que você já sabe um pouco mais sobre a cura do concreto, o que acha de aprender um pouco mais sobre a tecnologia do concreto? Acesse a aba “cursos” no menu deste blog e procure por Tecnologia do Concreto.

*Este artigo foi redigido pelo Eng. Civil Júlio Daudt sob curadoria de Bernardo Tutikian.

Bernardo Tutikian

Bernardo Tutikian

8 respostas

  1. Muito bom o texto, já fizemos a cura a úmido de blocos de fundação com manta geotêxtil saturada em água, com uma lâmina de água represada em cima do concreto mesmo, talvez não tenha sido uma boa prática pelo artigo diz que gera uma interfase tipo parede, isso reduziu a necessidade da mão de obra ir mais vezes molhar, o processo durou 3 dias até liberar o elemento da cura.

  2. Infelizmente não vimos essa prática na grande maioria das obras pequenas, que são muitas espalhadas pelo país. Precisamos divulgar o máximo em todas as esferas para que essa prática se torne comum e que o pessoal das pequenas obras apliquem essas técnicas. Agradecemos ao professor Bernardo a divulgação.

  3. Estamos em uma obra com bases (sapatas) 4.20X2.00X1.80 (Fundação rasa) executamos o sazonamento com mantas geotextil úmida e como estamos em período de chuvas nossa cura estar sendo bem feita. A única preocupação nessas bases de bombas (Capacidade 10 Ton e vibrantes) é os reaterros que estão expostos, a empresa faz as peças,as deixam exposta sem reaterrar, não tem uma sequência como trabalho na qualidade e sei que a Engenheira é uma ciência de passo a passo meu medo é que dê recalque por essas águas de chuva percolarem a escavação

  4. Otima e objetiva explicação referente a cura dando informações que melhora no desempenho do concreto trazendo melhor qualidade e durabilidade evitando manifestações patológicas

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